Categoria Meio Ambiente

Para compartilhar e se proteger

24/dez/2019

Esta história começa com um grupo de Sem-Terras que ocupam uma área em 1998, um lugar chamado Fazenda Rubira, que fica na costa de um pequeno rio na serra das Asperezas, um ambiente nativo da Pampa de pequenos capões de mato, na Serra do Sudeste, ambiente ainda com sua biodiversidade livre do agronegócio.

Estes assentamentos são de um período de Reforma Agrária pós Fernando Henrique e inicio do governo Olívio Dutra (RS) e todos possuem amplas reservas com a flora intacta e endêmica, especialmente pequenos peixes e diversidades campestres únicas.

A natureza do lugar começa a sofrer destruição com avanço de eucaliptais financiados pelas corporações corruptas da Votoran que, com o pretexto de poupança florestal, destroem o frágil equilíbrio hídrico destes solos rasos e secam amplas áreas impedindo a fauna local de se alimentar, especialmente pássaros, tatus…

Porém, a partir de 2015, o cenário muda com grupos de empresários com capital atacando lotes de famílias em miséria, destruindo coronilhas e bordas de arroio. Atacam áreas contínuas, especialmente de campo nativo, sob o pretexto de arrendamento, as dessecam com misturas de venenos, cuja deriva é tocada pelo vento e atinge a todos os moradores. Poucos relacionam as causas ao veneno, mas alguns provocam abortos nas vacas, porcas… E até crianças vieram a óbito nestas áreas envenenadas.

Neste período de 2015 e 2018, alardeei a comunidade e preveni nas reuniões, então os empresários sojeiros passaram a fazer pressão para que minha mãe arrendasse o campo para eles e o grupo me denunciou no fórum local por ameaça. Denunciei no MPF em Pelotas esta destruição em terras públicas. Como retaliação, um grande pulverizador com mais de 16 metros de barra passou a dessecar com herbicidas e inseticidas, próxima a casa da minha mãe, envenenando e causando morte de abelhas e árvores de frutas.

Neste período ficamos reféns de grupos armados, a brigada militar quando acionada se manteve distante alegando ser uma área federal fora de sua atuação. Este grupo de sojeiros tem sua base operacional na entrada da cidade de Pinheiro Machado, hoje terceirizam a plantação dentro do assentamento e mantém o controle dos lotes comprados, operação que é crime em áreas federais destinadas à Reforma Agrária.

A destruição ambiental segue em 2017 e 2018, denunciei o envenenamento das bordas de sanga com fotos, nomeação e provas contra os sojeiros.
Durante este período fui criminalizado no Fórum de Piratini com acusação de ameaças; o próprio sojeiro me acusou. Apresentei como defesa a perda das abelhas e mortes das árvores e destruição da natureza do assentamento. E durante audiência na frente do juiz recebi mais ameaças. O Juiz local passou estes processos para o MPE e este por sua vez passou para o MPF.

Este caminho jurídico todo é complexo. O Juiz local encara o sujeito que defende a natureza como marginal que está numa posição de meliante e o sojeiro que tem capital e traz esta força do agronegócio, como promotor do progresso que dá proveito às terras.

Nossas famílias criam vacas a pasto, abelhas, galinhas, constroem açudes, cuidam de frutíferas, e criam seus filhos… Em contradição, “laranjas” armados, liderados por especuladores, destroem as casas que foram construídas nos programas de moradia do governo federal e implantam a monocultura de soja, ação de terra arrasada, para que ninguém volte para estas terras.

Isto está se acentuando agora, dia 13 de dezembro de 2019, quando o grupo de milicianos armados, liderados por Clodoir José Bueno da Silva, deu tiros de advertência e desalojou a família de meu irmão Armando Machado, sua companheira Bruna Teixeira e seu bebê Artur. Este lote 10 está na borda do rio das Asperezas e ainda possui natureza. Denunciamos na Brigada Militar e no INCRA, além do MPF.

Este é um breve relato dos conflitos que acontecem nas áreas de Reforma Agrária no Município de Piratini/RS.
Jaime Carvalho