Categoria Educação

Um coração amazônico

09/set/2019

Vila Patrimônio, Irituia, no Pará. Distante 170 quilômetros de Belém. Nesse lugar nasceu Vicente Cirino Gomes, que após ser professor de Química por 18 anos, em diversos municípios do estado, retornou. Passo a palavra:

— Bem, fui professor por 18 anos, mas sempre me senti frustrado pela desvalorização e desrespeito com essa profissão. Por muitas vezes me senti incapaz diante de tanta falta de respeito.

Sempre achei que poderia contribuir melhor com a humanidade do que estar em sala de aula.

Foi quando conheci a Permacultura, foi amor a primeira vista… Passei um ano e meio estudando online, depois fiz um PDC e decidi tirar uma licença sem vencimentos, voltar pra minha cidade natal e colocar um projeto ousado em prática: Fazer permacultura junto com o povo. Então voltei no final de 2017 e comecei a trabalhar em um sítio doado pela minha mãe. Criei o Instituto Vida em Sintropia da Amazônia – IVISAM. Plantei alguns módulos de Agricultura Sintrópica como piloto.

Comecei a trazer cursos em diversas temáticas na área da Permacultura totalmente de graça para a população local.
Fui mobilizando lentamente…

“Essa parte do diálogo com a população, com certeza é o grande entrave da maioria dos projetos, uma vez que as pessoas já se sentem desenganados por tantas promessas e projetos que nunca saíram do papel. ”

Convidei os comunitários a construirmos uma praça ecológica em frente a capela local, eles toparam (estamos construindo a praça desde junho do ano passado), dessa equipe surgiu o grupo IVISAM CONSTRUÇÕES, que após o término da praça no final desse mês irá iniciar os trabalhos de construções de casas, círculos de Bananeiras e BETs nas casas dos comunitários;
Em um curso de Agricultura Sintrópica promovido aqui no sítio, juntamente com os participantes formamos o grupo IVISAM AGROFLORESTAL e saímos fazendo SAFs em 09 sítios nos arredores do vilarejo, atualmente temos 12 membros nesse grupo;
Recentemente formamos o grupo IVISAM EDUCAÇÃO, com os professores locais, onde fechamos parceria com uma entidade chamada REDE GLOBAL 4H. Nós próximos meses estaremos formando o grupo IVISAM ESPORTE e cultura.

E por aí vai, rsrs

Todos os trabalhos que acontecem por aqui ocorrem na forma de voluntariado e doações.

Dizem por aqui que voltei louco… Mas está dando certo.

Atualmente no sítio temos:

  • 01 ha de Sistemas AgroFlorestais (SAFs);
  • 01 Bacia de EvapoTranspiração (BET);
  • 02 círculos de bananeiras;
  • 01 Sala de aula ecológica (em fase final de construção);
  • 01 viveiro de mudas com aproximadamente 7.0000 mudas que pertencem a todos os membros;
  • criação de galinhas orgânicas.

Em uma reunião recente decidimos começar a produzir em uma escala maior, como alguns dos membros não possuem terra, resolvemos plantar juntos na sede do Instituto. Agora já somos 18 famílias começando a produzir de tudo um pouco.

Instituto Vida em Sintropia da Amazônia
Vila Patrimônio, Irituia, PA
www.facebook.com/Instituto-Vida-em-Sintropia-da-Amazônia-831009580595139/

Nossa intenção é trazer conhecimentos permaculturais gratuitamente para a população da zona rural, de forma que cada cidadão ou cidadã possa estar consciente de suas ações e de seu papel no planeta, buscando alternativas viáveis para a implementação de uma sociedade mais justa e cooperativa, onde se possa resolver pacificamente os conflitos buscando a harmonia entre as pessoas e o meio ambiente, além de gerar empoderamento familiar, emancipação e autogestão, rompendo assim o ciclo da dependência total do poder público para a sua permanência no campo.

A Educação Ambiental

21/ago/2019

Ana Maria Primavesi

O que educar? Antes de tudo, necessita-se recuperar o ser humano que atualmente somente é um “recurso humano” na produção de lucros. Ao ensino, ao treino da pessoa em alguma técnica, precisa-se juntar à educação a formação do homem em toda sua dignidade. Sem amor à sua pátria, à sua terra, dificilmente haverá o desejo de mantê-la intacta, de protegê-la da destruição. Com uma visão puramente materialista e imediatista, uma geladeira quebrada lhe interessa muito mais do que um rio seco. Ao lado do crescimento econômico, que atualmente não beneficia a comunidade como um inteiro com toda a sua destruição e poluição, devem-se ensinar tradições.

A base da compreensão do Ambiente é sua visão holística. Somente assim se enxergará também as consequências e o preço que pagamos.

A pedagogia ambiental não é uma pedagogia escolar mas sim de todos os ambientes da Terra. É impregnar os indivíduos de valores e não corromper-se por dinheiro e deixar o ambiente se deteriorar. Amar a sua pátria, a sua terra, tendo o sentimento de proteger seu meio ambiente e não só explorá-lo, é ser cidadão. A sociedade toda precisa ser envolvida e estar possuída deste sentimento. O atual estilo de vida precisa ser repensado e urgentemente mudado. O simples consumismo não dará continuidade à vida futura. Deverá haver decisiva mudança de mentalidades e atitudes em direção da sustentabilidade econômica. Urge uma conscientização planetária.

A natureza tem um único objetivo: garantir a continuação da vida. Mas antes de mudar a tecnologia, há de se mudar o homem. Uma vez resgatado em todos os seus valores, abre-se um caminho para uma civilização muito mais elevada do que a atual.

Ecosfera-tecnosfera-agricultura não devem entrar em choque mas podem e devem harmonizar-se para poderem continuar a proporcionar vida ao ser humano. Somente o lucro e o crescimento econômico não sustentam a vida. Necessita-se de alimentos, ar e água. A tecnosfera não impede a fome, o aumento explosivo da miséria e a crise econômica.

A pedagogia do futuro precisa integrar as ciências para se chegar ao desenvolvimento sustentável. Somente ações integradas combatem a destruição do planeta e consequentemente a vida.

Precisa-se uma reorientação dos currículos. Formar pessoas com consciência da realidade. Começar pelos jovens adultos para poderem ensinar e incutir aos pequenos desde cedo.

Não deve ficar só nos estudos dos problemas do lixo, reciclagem, poluição dos rios como o Tietê em São Paulo e do ar, a urbanização e seus problemas de água, as enchentes. A questão é muito mais grave e séria. A nossa sobrevivência é que está correndo perigo!

Ressignifiquem o aprender. Por exemplo: o plástico leva mais de 150 anos para se degradar (ou mais) na natureza. Isso é bom ou ruim? Muitos vão dizer que é ruim, mas são 150 anos que não preciso esgotar um recurso finito que é o petróleo. Então o que está errado não é ter o plástico em si, mas como nos desfazemos dele, sem o utilizar plenamente em seu tempo de vida.

Também a vida do solo deve ser ensinada e aprofundada. Professores, estudem e ajudem seus alunos a valorizar o que de mais importante temos, nossa terra. Dela depende tudo: o ar, a água, as plantas e os animais. Por que as escolas focam em conteúdos que as crianças nunca usarão em suas vidas e deixa de ensinar o essencial, que é a vida na e da terra? Talvez poucos a conheçam justamente porque não foram ensinados. Do solo aprende-se a química, a biologia, a ecologia, a hidrografia, a pedologia, a climatologia, a oceanografia, a física, a matemática e outros… Até tintas com as cores de solo as aulas de artes podem fazer! Isso sem considerar as artes com as folhas secas, os potes de barro, os fios de algodão, e tudo que a natureza nos proporciona.

Nossa educação carece ainda de muita consciência mas agora parece não termos mais tanto tempo para esperar.

Ana Maria Primavesi
publicado em www.facebook.com/anamariaprimavesi/posts/4713005758734511